Diálogo Florestal: uma ferramenta de conservação em terras privadas

por | jul 3, 2009 | Notícias

Introdução

Os desafios para proteger a biodiversidade remanescente da Mata Atlântica e para restaurar a conectividade ecológica dos fragmentos em algumas regiões prioritárias – como no caso dos Corredores de Biodiversidade da Serra do Mar e Central da Mata Atlântica – são enormes e significam dificuldades proporcionais ao tamanho e à importância da região (Mesquita et al. 2006). Estima-se que mais de 80% dos remanescentes florestais do bioma estejam localizados em propriedades particulares.

Deste modo, é evidente e primordial que as entidades engajadas na luta pela preservação da Mata Atlântica desenvolvam, adequem, experimentem e priorizem estratégias para promover o envolvimento direto do setor privado, seja este representado por grandes empresas ou por pequenos produtores rurais, nos esforços de proteção e recuperação da cobertura florestal nativa do bioma. Estas ações são fundamentais para garantir o desenvolvimento em bases sustentáveis na região, na medida que promovem a proteção e a recuperação de recursos naturais fundamentais para o desenvolvimento sustentável e para a melhoria da qualidade de vida das populações humanas, tais como água, solos e a própria biodiversidade.

A Convenção sobre a Diversidade Biológica, da qual o Brasil é signatário, aponta a criação de áreas protegidas em terras privadas como uma das estratégias prioritárias para se reverter o processo de degradação ambiental e perda de biodiversidade no planeta. Projetos que visam ao planejamento para a proteção ambiental em larga escala, como é o caso dos corredores ecológicos, indicam estratégias de conservação em terras privadas como uma das ferramentas essenciais para se promover a reconectividade entre os remanescentes. Segundo o Artigo 8º da Convenção sobre Diversidade Biológica, os signatários devem, na medida do possível, estabelecer um sistema de áreas protegidas ou áreas onde medidas especiais precisem ser tomadas para conservar a diversidade biológica in situ (Glowka et al. 1996).

De acordo com o dicionário Aurélio, a palavra diálogo é definida como “fala entre duas ou mais pessoas, conversação, colóquio. Troca ou discussão de idéias, de opiniões, de conceitos, com vistas à solução de problemas, ao entendimento ou à harmonia. Comunicação” (Ferreira, 2004). Esta definição traz em si duas premissas básicas. A primeira delas, a de que para existir diálogo é preciso haver diferenças entre as idéias, as opiniões e os conceitos, isto é, quando todas as partes compartilham as mesmas idéias ou possuem as mesmas opiniões e conceitos não há diálogo, apenas consenso. A segunda, evidencia que diálogos são feitos “com vistas à solução de problemas”. Ou seja, quando não há um problema, não há necessidade de diálogo.

Desde o final da década de 60 do século passado, portanto há quase 50 anos, o Brasil é palco da implantação de grandes plantios homogêneos de espécies arbóreas, especialmente dos gêneros Eucalyptus e Pinus, para suprimento de matéria-prima para as fábricas de celulose, de papel, de embalagens, de chapas de fibras e de móveis, bem como para sua utilização como fonte de energia em diferentes atividades econômicas, em especial na produção siderúrgica.

Fomentada por generosos incentivos fiscais, primeiramente, e turbinada pelo expressivo avanço tecnológico e pela crescente demanda do mercado, posteriormente, a silvicultura brasileira se expandiu, se consolidou e vive, no início do século XXI, novo momento de forte expansão, trazendo consigo os impactos socioambientais inerentes a qualquer atividade econômica baseada na implantação de monoculturas em larga escala e na exportação de produtos semi-elaborados.

Mesmo ponderando que a silvicultura ocupa atualmente menos de 6 milhões de hectares, ou 0,7% do território brasileiro, seus efeitos sobre a economia, sobre a cultura e, sobretudo, sobre a paisagem das regiões onde está concentrada, são evidentes e bastante bem estudados. Negá-los seria impossível. Subestimá-los, pela sua comparação com os efeitos extremamente mais danosos de outras atividades dependentes de monocultivos em larga escala, como a cana-de-açúcar, a soja e a pecuária, só serviria para situá-la entre péssimos exemplos, o que de forma alguma poderia ser considerado uma vantagem.

Diante desta realidade e da clara percepção de que a silvicultura encontra-se em plena expansão no país, como o movimento ambientalista deve se comportar? Por outro lado, da parte das empresas, sabendo que a conscientização sobre a problemática socioambiental nunca foi tão grande, amparada por uma legislação ambiental classificada entre as mais modernas do planeta e por um mercado cada vez mais exigente, inclusive em termos de precauções aos impactos decorrentes do modelo de produção adotado e de princípios de responsabilidade socioambiental, como as mesmas devem atuar?

Ambientalistas e empresas de base florestal protagonizam uma relação conflituosa. E não há como ser diferente, uma vez que defendem interesses e possuem visões de mundo na maioria das vezes inconciliáveis. Entretanto, com o avanço e a disseminação do conhecimento, acelerada pela globalização – não apenas do capital, mas também da capacidade de mobilização social – torna-se evidente, ou melhor, necessária, a criação de espaços de diálogo. A partir da constatação tácita que o desenvolvimento sócio-econômico não poderá prescindir dos produtos da silvicultura, e assumindo que tais produtos não poderão ser obtidos por meios ilícitos ou sem qualquer controle ambiental, com participação social, a opção do diálogo pró-ativo apresenta-se como uma das alternativas para o enfrentamento desta questão.

Apostar que é possível identificar agendas comuns, em busca da construção participativa e coletiva de alternativas viáveis, significa quebrar paradigmas e superar mitos, tanto entre os ambientalistas quanto entre os empresários e profissionais do setor. Mas quebrar paradigmas e desmistificar conceitos e formas de atuação pressupõe um processo lento, difícil, arriscado e muitas vezes doloroso. Inevitável, porém.

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