Evento internacional reúne especialistas na Bahia para debater restauração de ecossistemas

maio 13, 2026 | Fórum Florestal da Bahia, Notícias

O Diálogo de Campo Sobre Restauração de Ecossistemas foi realizado na região sul da Bahia, entre os dias quatro e sete de maio de 2026. Cerca de 50 participantes nacionais e internacionais envolvidos na temática visitaram áreas em processo de restauração de ecossistemas, buscando compreender os desafios e oportunidades no contexto brasileiro, com foco no papel do setor privado.

Organizado pelo Fórum Florestal da Bahia e pelo Diálogo Florestal, em associação com The Forests Dialogue (TFD), este foi o segundo Diálogo de Campo da Iniciativa de Restauração do TFD, antecedido pela edição realizada na Indonésia, em 2024.  Esta iniciativa global visa compreender melhor como o setor florestal, em particular o setor florestal privado, pode intensificar as ações e os investimentos na restauração florestal. Idealmente, isso será feito em colaboração com outras partes interessadas e com plena compreensão dos papéis, direitos e responsabilidades de cada uma.

Esses eventos são baseados no diálogo entre representantes do setor privado, organizações da sociedade civil, povos indígenas e comunidades tradicionais e instituições de ensino e pesquisa buscam incentivar o processo de assistência à recuperação de ecossistemas degradados, danificados ou destruídos em nível global. No Brasil, o Diálogo incluiu visitas em campo que reuniram atores internacionais, participantes de diferentes regiões do Brasil e também representantes com atuação no território para:

・Esclarecer as necessidades de restauração do ecossistema e envolver um grupo mais amplo de partes interessadas na Bahia.

・Entender como o setor privado pode apoiar melhor a restauração florestal e aumentar seu engajamento.

・Explorar oportunidades de colaboração para co-criar abordagens bem-sucedidas de restauração do ecossistema.

・Explorar casos de sucesso de parcerias entre empresas e comunidades, apoio político e políticas mais claras, novos modelos de financiamento, reconhecimento dos direitos tradicionais e maior inclusão dos povos indígenas e das mulheres.

・Examinar os principais fatores de sucesso e desafios no contexto local.

As atividades foram facilitadas por seis colideranças com atuação em restauração ecológica em diferentes setores e contextos: Maurem Alves  (Klabin S.A. – Brasil), Kerry Cesareo (WWF – Estados Unidos), Marcus Colchester (Forest Peoples Programme – Reino Unido), Erica Munaro (Fórum Florestal da Bahia – Brasil), Cecile Ndjebet (REFACOF – Camarões), e Fernanda Rodrigues (Diálogo Florestal – Brasil).

Jantar de boas-vindas e apresentação do documento de base

No primeiro dia de evento, os participantes foram recebidos com um jantar de boas-vindas, que buscou integrar as pessoas participantes, compartilhar expectativas, apresentar as co-lideranças do Diálogo de Campo e os objetivos da iniciativa. Além disso, foi apresentado um resumo do documento de base (background paper), elaborado por Daniel Piotto (UFSB) e colaboradores com apoio do grupo assessor do diálogo de campo. 

O documento de base incluiu uma introdução sobre a iniciativa global do TFD sobre restauração, visão geral da restauração de ecossistemas; Restauração de Ecossistemas na Mata Atlântica e no sul da Bahia, Brasil; Engajamento do setor privado na restauração de ecossistemas no sul da Bahia e considerações para as vivências e reflexões durante o Diálogo de Campo. A versão final do documento, incluindo comentários e sugestões das pessoas participantes durante o evento, será publicada na página do TFD em breve.

Diálogos de Campo em Teixeira de Freitas e Prado (BA)

No segundo dia do evento o foco foi conhecer uma iniciativa de restauração ecológica e agrofloresta como estratégias de conexão de fragmentos no pré-assentamento Fábio Santos.  A comunidade do pré-assentamento Fábio Santos, do  Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) localizado em Teixeira de Freitas (BA), é composta por cerca de 96 famílias que desenvolvem atividades agrícolas diversificadas, como café, melancia, abóbora e produção de leite. Por meio do Projeto Corredor da Mata Atlântica, a comunidade conduz a restauração de mais de 200 hectares, contribuindo para a conexão de fragmentos da Hileia Baiana, utilizando metodologias como regeneração natural assistida, plantio direto, enriquecimento e sistemas agroflorestais.   

A Suzano assumiu o compromisso de conectar 500 mil hectares de fragmentos prioritários para conservação da biodiversidade até 2030, por meio da implementação de corredores ecológicos, em parceria com diferentes atores do território. Em uma área que teve no passado como principais fatores de degradação a agricultura e a exploração de madeira seguida de pecuária extensiva e de baixa produtividade foi utilizada a abordagem de restauração ecológica e sistemas agroflorestais, com plantio que tem atualmente entre  3 e 8 meses via parceria com Inovaland / Fundo Ambiental Sul Baiano (FASB).

Em área própria da Suzano S.A., os participantes conheceram a experiência de restauração ecológica em áreas protegidas (APP e RL) integradas ao manejo do plantio de eucalipto. A Fazenda Alcoprado é uma propriedade que possui 93,9 hectares em processo de restauração. Antes da aquisição pela empresa, a área era utilizada como pastagem, o que gerou a necessidade de adequação ambiental conforme as exigências do Código Florestal para áreas destinadas à conservação.

Diálogos de Campo no Parque Nacional do Pau-Brasil e Symbiosis

Localizado em Porto Seguro (BA),  no Parque Nacional do Pau Brasil há dois projetos de restauração florestal financiados pela Priceless Planet Coalition (PPC) em andamento, sob liderança da Conservação Internacional (CI) com apoio financeiro do Mastercard. Os projetos, denominados PPC Fase 1 e PPC Fase 2, iniciados em julho de 2022 e abril de 2024, respectivamente, aplicam duas metodologias distintas de restauração: plantio total e regeneração natural assistida com enriquecimento. A visita ao Parque Nacional do Pau Brasil permitiu observar, analisar e refletir sobre a implementação e o desenvolvimento dessas iniciativas, oferecendo uma visão comparativa entre as técnicas utilizadas e seus resultados no campo. A implementação nesta área é realizada via parceria com a organização Grupo Ambiental Natureza Bela, e no Brasil há várias áreas integrantes do PPC com diversos parceiros implementadores. Antes do diálogo em campo no Parque, o grupo foi recebido pela gerência do Parque Nacional do Pau Brasil/Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) que falou sobre o histórico de criação desta Unidade de Conservação e sua importância no contexto regional e nacional.

A parte da tarde do terceiro dia do evento foi dedicado à conhecer a experiência com silvicultura de espécies nativas em larga escala e adequação ambiental da Symbiosis. A Symbiosis Investimentos atua no desenvolvimento de modelos de silvicultura com espécies nativas que integram produção florestal, restauração da Mata Atlântica e geração de valor a partir de ativos naturais. A área visitada exemplifica essa abordagem ao articular diferentes etapas da cadeia produtiva, incluindo viveiro de mudas e melhoramento genético, operações de processamento de madeira e áreas de floresta plantada e restauração. A programação da visita foi estruturada em estações temáticas, permitindo compreender de forma prática como a integração entre produção, inovação e conservação contribui para a construção de paisagens florestais multifuncionais e sustentáveis.

Plenária final

O último dia do evento iniciou com a reflexão das vivências em campo por Maurem Alves e Marcus Colchester, colideranças da iniciativa. O dia seguiu com trabalhos em grupo para promover a reflexão sobre os principais desafios, em uma sessão liderada por Kerry Cesáreo e Erica Munaro. Os desafios definidos como prioritários para enfrentamento foram os seguintes: implementação e aplicação da lei; inclusão e engajamento de povos indígenas e partes interessadas; esforços fragmentados e fluxo de informações deficiente; limitações financeiras; qualidade da restauração incluindo monitoramento; e, valorização da natureza. 

Com base nos desafios priorizados para enfrentamento, a sessão seguinte liderada por Fernanda Rodrigues e Cecile Ndjebet utilizou uma dinâmica de carrossel, em que todas as pessoas participantes tiveram oportunidade de apresentar suas opiniões sobre soluções possíveis para endereçar os desafios.

Próximos passos

Nos próximos meses, será publicado o resumo das colideranças, contendo um apanhado geral dos aprendizados do diálogo de campo, bem como o documento de base será finalizado e publicado no site do The Forests Dialogue.

De acordo com a metodologia de diálogo do The Forests Dialogue, após o encerramento da etapa de diálogos de campo, uma oficina de finalização é organizada, visando integrar as perspectivas construídas na etapa de campo e permitir a construção de um caminho para a ação. 

Co-lideranças do Diálogo de Campo: Erica Munaro (Fórum Florestal da Bahia – Brasil), Marcus Colchester (Forest Peoples Programme – Reino Unido), Maurem Alves (Klabin S.A. – Brasil), Kerry Cesareo (WWF – Estados Unidos), Fernanda Rodrigues (Diálogo Florestal – Brasil) e Cecile Ndjebet (REFACOF – Camarões), com Gary Dunning, diretor do The Forest Dialogue. Crédito: © Isabela Filgueira Campos/TFD. 

 
Sobre o The Forests Dialogue

O The Forests Dialogue (TFD) foi criado em 2000 para fornecer aos líderes internacionais do setor florestal uma plataforma e um processo de diálogo multissetorial contínuo, focados no desenvolvimento da confiança mútua, de um entendimento compartilhado e de soluções colaborativas para os desafios na obtenção da gestão florestal sustentável e da conservação florestal em todo o mundo.

Sobre o Diálogo Florestal

O Diálogo Florestal é uma iniciativa pioneira e independente que desde 2005 facilita a interação entre representantes de empresas, associações setoriais, organizações da sociedade civil, grupos comunitários, povos indígenas, associações de classe e instituições de ensino, pesquisa e extensão. Nasceu destinado a ser um espaço qualificado para o diálogo entre setores historicamente antagônicos, como, por exemplo, empresas do setor de base florestal e organizações ambientalistas. Conta com 250 membros em sete Fóruns Florestais regionais.

Sobre o Fórum Florestal da Bahia

O Fórum Florestal da Bahia (FF BA), criado em 2005, é um espaço permanente de diálogo multissetorial voltado à construção de entendimentos entre o setor florestal e as comunidades no Sul e Extremo Sul da Bahia. Reúne empresas, organizações da sociedade civil, comunidades e instituições de pesquisa engajados também na construção de soluções colaborativas para a conservação da Mata Atlântica, restauração ecológica e promoção de atividades sustentáveis no Sul e Extremo Sul da Bahia.

Apoio ao Diálogo de Campo sobre Restauração de Ecossistemas na Bahia

Apoiaram financeiramente a realização do evento: Bracell, Indústria Brasileira de Árvores (IBÁ), Klabin, Suzano, Instituto Arapyaú e Symbiosis. Agradecemos também o apoio in kind da Inovaland e The Forests Dialogue.

Autoria: Fernanda Rodrigues e Vitor Lauro Zanelatto
Revisão: Gary Dunning  
Fotos: Isabela Filgueira Campos/TFD e Vitor Lauro Zanelatto/DF

Para mais informações, entre em contato:
WhatsApp: + 55 47 988154086 | E-mail: contato@dialogoflorestal.org.br – Vitor Lauro Zanelatto